Hoje decidi convidar, aleatoriamente, algumas pessoas que constam na lista de amigos da minha página pessoal do facebook para gostarem da minha nova página (pública). Esta nova página foi criada há pouco tempo com o intuito de “deitar cá p’ra fora” coisas que, no apressado dia-a-dia, têm capacidade de me fazer pensar. Além disso, sempre me dei bem com a escrita e decidi que devia expôr essa relação chegada que tenho com as palavras. Neste século do empreendedorismo pessoal esta é só uma das muitas formas que temos, ao nosso alcance, para mostrarmos aquilo que valemos em qualquer área.
Até aqui tudo normal, penso eu. O que torna tudo “isto” anormal é o ódio, a frustração e o tempo perdido entre estes dois sentimentos maléficos que algumas pessoas insistem em revelar ao mundo (de forma virtual, claro!). Passo a explicar, enquanto estava a enviar os tais “convites” recebo a seguinte mensagem: “Eu não te conheço de lado nenhum para gostar da tua página!”. Muito bem, muito bem escrito e muito conciso. Só é pena a falta de conteúdo! A sério que vivemos num mundo em que os humanos perdem tempo a mandar mensagens destas? Será difícil perceber que neste novo mundo ninguém obriga ninguém a gostar do que quer que seja e cada um só gosta se quiser? Queiramos ou não é assim que as coisas se passam nesta virtualidade livre e evoluída. Mas então, o que faz com que as pessoas prefiram perder tempo a cuspir ódio, em relação a um completo desconhecido, em vez de se calarem? E, noutros casos piores que este, o que faz com que as pessoas tenham tanta vontade (e à vontade!) para insultar o próximo? Este tipo de comunicação, sem conteúdo mas provocadora, (infelizmente!) só demonstra o quão necessitado está o ser humano de uma resposta, ou melhor, de atenção. O ser humano sabe, desde criança, que não há melhor maneira de criar atenção sobre si do que irritar o outro – é meia certeza de que ele vai aprender o nosso nome ou, pelo menos, ler-nos. As mensagens e comentários deste género, que as pessoas perdem tempo a escrever e a enviar (porque receberam um convite para gostar de uma página como tantas outras!), não são mais do que um pedido de atenção urgente.
Estas e outras considerações fazem-me achar que as redes sociais são, entre muitas coisas, um repositório de emoções que o mundo real obriga à contenção. E só entendendo o problema desta forma é que consigo perceber o que poderá motivar as pessoas a terem este tipo de comportamento on-line.
A triste realidade é que o ser humano virtual é, muitas vezes, o pior dos seres humanos. Sente-se protegido por um ecrã que o esconde e, como dizia Oscar Wilde – dá a um homem uma máscara e ele dirá a verdade. Não mede o que diz, não tem tempo para pensar (semelhante é a quantidade e assuntos a que tem que dar resposta), vive numa completa confusão de sentimentos que nem tem tempo para sentir e, acima de tudo, precisa de exteriorizar a confusão e a revolta que inconscientemente vai alimentando pelo simples facto de estar vivo na era de maior desordem antropológica da história.
Pois é, este início de século está a ser demasiado complexo para que possamos ter uma ideia clara sobre o que o mundo espera de nós. Hoje é natural vivermos confundidos, atolados em sentimentos contraditórios, sem sabermos muito bem que lugar ocupamos nas mais variadas situações. Além disso (e com tudo a ver com isso), somos das primeiras gerações a lidar com o admirável mundo novo da realidade digital, um mundo sem leis escritas, sem antepassados, sem tradições e completamente virado para o futuro. Um mundo diferente de tudo o que o ser humano já experienciou. Somos pioneiros e, exatamente por isso, acabamos por nos perder algures entre o que sempre fomos e o que não sabíamos ser.
Claro que é demasiado redutor analisar o ser humano apenas com base no que ele demostra na sua virtualidade mas, ao mesmo tempo, é preciso analisar esse super-homem que considera, na maior parte das vezes, estar acima de tudo e de todos, ser dono de uma razão infinita e de uma personalidade irrepreensível.
Rock&Rolla, 2019