“Aos quinze anos de idade Annabelle fazia parte dessas muito raras raparigas diante das quais todos os homens se detêm, sem distinção de idade nem de estado; dessas raparigas cuja simples passagem, ao longo da rua das lojas de uma cidade de importância média, acelera o ritmo cardíaco dos jovens e dos homens de idade madura, faz soltar aos velhos grunhidos nostálgicos. Ela tomou rapidamente consciência desse silêncio que acompanhava cada uma das suas aparições, num café ou numa sala de aula; mas precisou de anos para compreender plenamente a razão por que assim era. No instituto do ensino geral de Crécy-em-Brie, era geralmente admitido que ela “andava com” Michel; mas até mesmo sem isso, para dizer a verdade, nenhum rapaz teria ousado tentar fosse o que fosse com ela. Eis um dos principais inconvenientes da extrema beleza nas raparigas: só os conquistadores experimentados, cínicos e sem escrúpulos se sentem à altura; em geral portanto são os seres mais vis que obtêm o tesouro da sua virgindade, e isso constitui para elas o primeiro estádio de uma degradação irremediável.”
Michel Houellebecq, in “As Partículas Elementares”, 1998