“Porque estão tantas pessoas em lugares de poder a tentar minar a confiança da opinião pública nas eleições, nos tribunais, nos meios de comunicação e – questão essencial do futuro da Terra – na ciência?
Ao contrário da monarquia ou da ditadura militar, que são impostas à sociedade a partir de cima, o fascismo vai buscar a energia aos homens e mulheres transtornados por causa de uma guerra perdida, do emprego perdido, de uma memória de humilhação ou da sensação de que o seu país está em declínio acentuado. Quanto mais dolorosas forem as razões para o ressentimento, mais fácil é um dirigente fascista conquistar seguidores, acenando-lhes com a perspetiva da renovação ou prometendo-lhes que recuperarão o que lhes foi roubado.
Tal como os mobilizadores de movimentos mais benignos, estes evangelistas seculares exploram os desejo humano quase universal de fazer parte de uma procura importante. Os mais talentosos entre eles têm aptidão para o espetáculo – para orquestrarem concentrações de massas completadas com música marcial, retórica incendiária, aclamações ruidosas e saudações de braço estendido. Aos que lhes são leais, os fascistas oferecem o prémio de fazerem parte de um clube que exclui outros, os quais são muitas vezes são ridicularizados.
O fascismo nasceu nos começos do século XX. Uma época de animação intelectual e de ressurgimento do nacionalismo ligado a um desapontamento generalizado com a incapacidade dos parlamentos representativos de acompanharem o ritmo de uma Revolução Industrial movida pela tecnologia.
A inovação é o principal gerador de emprego, mas é igualmente o seu destruidor número um. A tecnologia tem permitido às empresas aumentar a produtividade – uma bênção para os consumidores, mas não para aqueles cujos empregos se tornaram obsoletos. É por isso que temos menos mineiros de carvão, trabalhadores agrícolas, rebitadores, soldadores, calceteiros, empregados bancários, costureiras, ferreiros, tipógrafos, jornalistas de imprensa, caixeiros-viajantes e telefonistas – um défice que não é compensado pelo aumento de programadores informáticos, consultores, técnicos de saúde, especialistas em aconselhamento sobre dependências e estrelas dos reality shows da televisão. O concorrente mais difícil para qualquer trabalhador é uma máquina que pode fazer o mesmo trabalho quase sem custos.
Hoje, globalmente, mais de um terço da força de trabalho não com emprego a tempo completo. Na Europa, o desemprego juvenil é superior a vinte e cinco por cento, e este nível é ainda mais elevado entre os imigrantes. Nos Estados Unidos, um em cada seis jovens não frequenta a escola nem tem emprego. Os salários, em termos reais, estão estagnados desde 1970. Estes números seriam perturbadores em qualquer época, mas são particularmente preocupantes na atualidade, quando são tantos os países onde a população que atinge a idade adulta está ansiosa por iniciar uma carreira, mas não tem nenhuma hipótese realista de o fazer.
Entretanto, os avanços da tecnologia têm originado ao mesmo tempo a bênção de uma opinião pública mais informada e a maldição de uma desinformada – homens e mulheres que têm a certeza de que sabem a verdade porque viram ou lhes disseram nas redes sociais. A vantagem de uma imprensa livre diminui quando alguém que pode reclamar ser um jornalista objetivo a seguir divulga narrativas que surgem do nada para levar os outros a acreditar em disparates. Os movimentos políticos extremistas, incluindo os grupos terroristas, recorrem à mesma prática. Isto coloca nos operadores de plataformas de redes sociais a obrigação de reexaminar o seu papel.
Existem dois tipos de fascistas: os que dão ordens e os que as acatam. Uma base de apoio popular dá ao fascismo as pernas que ele necessita para caminhar, os pulmões que usa para fazer as proclamações e o músculo em que se firma para ameaçar – mas isto é fascismo do pescoço para baixo. Para criar a tirania a partir dos medos e das esperanças das pessoas comuns, é preciso dinheiro e por isso, também, ambição e ideias perversas. É a combinação de tudo isto que mata. Na ausência de apoiantes abastados, provavelmente nunca teríamos ouvido falar do cabo Mussolini ou do cabo Hitler. Na ausência da sua compulsão para dominar a qualquer custo, nenhum dos dois teria causado o mal que causou.
Muitos movimentos políticos de dimensões apreciáveis são populistas em maior ou menor grau, mas isso não faz deles fascistas, nem sequer intolerantes. Quer procurem limitar a imigração ou alargá-la, critiquem o islão ou o defendam, façam lobby pela paz ou incentivem a guerra, são todos democráticos desde que tentem alcançar os seus objetivos por via democrática. O que torna um movimento fascistas não é a ideologia, mas a predisposição para fazer tudo o que for necessário – incluindo recorrer à força e espezinhar os direitos dos outros – para alcançar a vitória e impor a obediência.
Vale a pena lembrar também que é raro o fascismo fazer uma entrada em cena de grande espetacularidade. Por norma, começa com uma personagem aparentemente menor que avança à medida que os acontecimentos dramáticos se vão desenvolvendo. A história segue quando surge a oportunidade de agir e só os fascistas estão preparados para atacar.
O fascismo talvez devesse ser encarado menos como ideologia política e mais como um meio de conquistar e manter o poder.”
Madeleine Albright, in “Fascismo – Um Alerta”, 2018