“Deve-lhe propor que venha instalar-se em praga? É uma responsabilidade que o apavora. Se a convida agora a vir passar uns dias a sua casa, ela virá imediatamente oferecer-lhe a vida inteira. Ou deve renunciar? Nesse caso, Tereza continuará a ser criada numa cervejaria daquele buraco de província e nunca mais a verá. Quer que ela venha ter consigo ou não? Olha para o pátio, tem os olhos fixos no prédio em frente e procura uma resposta. Nunca conhecera ninguém assim. Não era uma amante nem uma esposa.
Ela adormecera. Ajoelhou-se ao seu lado. O hálito febril acelerou-se e ouviu um leve gemido. Encostou o rosto ao dela e soprou algumas palavras de repouso para dentro do seu sono. Um instante depois pareceu-lhe que a respiração de Tereza se acalmava e que o seu rosto se levantava maquinalmente em direção ao dele. Cheirava-lhe nos lábios o cheiro um pouco acre da febre e aspirava-o como se se quisesse impregnar da intimidade do seu corpo. Então começou a pensar que Tereza já lá morava em casa há muitos anos e que estava moribunda. De repente tornou-se evidente que não sobreviveria ‘a sua morte. Deitar-se-ia a seu lado para morrer também. Escondeu o rosto contra o dela na almofada e assim ficou por longo tempo.
O que seria que assim se dava a conhecer senão o amor? (percebia que não sabia se aquilo era histeria ou amor!) Censurava-se intimamente, mas acabou por pensar que, no fundo, não se saber o que se deve querer é normal: nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem retificada em vidas posteriores. É melhor ficar com Tereza ou ficar sozinho?
Há dez anos, quando se divorciara da primeira mulher, tinha vivido o divórcio com a mesma euforia com que outros celebram o casamento. Compreendera nessa altura que não fora feito para viver com uma mulher, fosse ela qual fosse, e que só poderia ser verdadeiramente ele próprio se vivesse sozinho. Assim, protegia a sua vida até ao mais ínfimo pormenor para que nenhuma mulher munida de uma mala pudesse um dia vir instalar-se em sua casa. Era por isso que só tinha um divã. Embora o divã fosse bastante largo dizia sempre ‘as amigas que era incapaz de adormecer ao lado de outra pessoa e, depois da meia noite, levava-as sempre a casa.
Arranjou então um quarto para onde Tereza teve de levar a sua pesadíssima mala. Queria tomar conta dela, protegê-la, gozar a sua presença, mas não sentia necessidade nenhuma de mudar de vida. Por isso não queria que se soubesse que ela dormia em sua casa. A partilha do sono era o corpo de delito do amor. Com as outras mulheres nunca dormia. Era-lhe profundamente desagradável acordar a meio da noite ao lado de uma criatura estranha.
Qual não foi a sua surpresa quando, ao acordar, percebeu que Tereza lhe agarrava a mão com toda a força! Olhava para ela sem conseguir perceber o que lhe tinha acontecido. Recordando as últimas horas, parecia que se desprendia delas o perfume de uma felicidade desconhecida.”
Milan Kundera, in “A Insustentável Leveza do Ser”, 1984