Review: “Americanah” de Chimamanda Adichie

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Americanah é, até agora, a obra prima de Chimamanda Adichie, uma nigeriana que decidiu contar ao mundo a sua experiência na América. Sendo ostensivamente um romance, não é com uma história de amor que Americanah nos conquista, é com a experiência de se ser no mundo enquanto indivíduo, na solidão da individualidade que cada um de nós carrega.

A história principal acompanha Ifemelu e Obinze, dois colegas de escola que se tornam namorados e que, a certa altura, a vida separa em dois países distantes. No entanto, o reencontro dos dois deixa de ser aquilo por que ansiamos quando evoluímos na narrativa. Com um sem fim de particularidades que se sobrepõem a essa história, Americanah muda a nossa maneira de ver o mundo. Palavras proibidas, questões religiosas, o poder do dinheiro, o enjoo da rejeição, o luxo da caridade e a consciência da raça são apenas a base onde se cozinha este mil folhas nigero-americano.

Ifemelu cresceu na Nigéria. Vive em Lagos, uma cidade onde os quase ricos se rebaixam aos ricos, com os pais e a tia Uju. O pai a braços com o desemprego e a mãe numa incessante busca da religiosidade perfeita. O futuro desenha-se entre a “emigração e um baldio seco de desemprego”. A corrupção generalizada e a economia lambe-botas do país incitam à saída dos que podem. As greves dos professores são recorrentes e o sonho mais natural para os que não querem compactuar com o sistema é poder estudar em Inglaterra ou na América. Um dia, a tia Uju é obrigada a sair da Nigéria e parte para os Estados Unidos na senda do sonho americano ou, pelo menos, crente na sua possibilidade. Ifemelu acaba por se lhe juntar e é na descoberta deste novo mundo que o romance ganha forma e extrapola a configuração simples da sua classe.

“Brooklyn cheira a desleixo.” A deceção de chegar a um verão americano onde os “edifícios, automóveis e cartazes, todos sem brilho, decepcionantemente sem brilho” são a primeira impressão. Os três empregos da tia Uju que mal dão para pagar as contas e a dificuldade extenuante de arranjar um desses empregos. A dificuldade anterior que é conseguir um cartão da segurança social de outra pessoa que tenha permissão para trabalhar no país. A mania de cozinhar salsichas em água, os novos paladares, o sabor pouco intenso da fruta e a certeza de que a maior parte dos imigrantes nigerianos poupa o ano todo para poder voltar à Nigéria pelo Natal, deixam Ifemelu angustiada. A América não é o que ela pensava que era.

“Filadélfia cheira a bafio”, mas não intimida como Manhattan. A carne frita das roulottes e as mulheres que usam ténis – “a prova da preferência americana pelo conforto, mais do que pela elegância” começam a conquistar Ifemelu. É em Filadélfia que se dá a iniciação ao vocabulário americano. Na faculdade ou fora dela, entre amigas ou com a família para quem trabalha como baby-sitter, Ifemelu é confrontada pela primeira vez desde que se conhece, e de forma recorrente desde esse dia, com questões de raça. O primeiro aviso surge através de uma amiga nigeriana que já vive na América há muitos anos e que a certa altura se vê obrigada a explicar que na América não se usa a palavra mestiça, que o termo correto é birracial e que “há umas merdas dos brancos neste país que tu vais ouvir, mas que a mim não dizem”.

E são exatamente essas “merdas” que fazem com que Ifemelu comece a escrever um blog anónimo intitulado “Sobre Raça ou Várias Observações sobre os Negros Americanos (antigamente chamados Pretos) por uma Negra Não Americana” Das diferentes associações de estudantes, uma chamada Associação de Estudantes Africanos e outra chamada Associação de Estudantes Negros que separam os negros africanos dos afro-americanos, à necessidade de uma pronúncia americana como meio de inclusão, ao problema do cabelo que pode fechar ou abrir portas, aos novos complexos que é suposto ter – “quando alguém te diz que emagreceste tu agradeces. É diferente aqui.” –  à cor de pele que não se pode referir – “Porque é que «preto» foi substituído por um bip?” – e à constatação de que para os brancos “os negros na América não são ricos” há toda uma crítica extremamente atual que nos ajuda a perceber as múltiplas nuances com que se desenha a América.

Mas não é só a América que se apresenta com novas cores, também a sonhada Inglaterra e a própria Nigéria se despem em considerações ao longo das páginas. As comparações são inevitáveis. Da deportação de emigrantes em Inglaterra à função dos geradores na Nigéria, das casas de banho dos escritórios de Londres às magníficas casas dos ricos nigerianos, dos vendedores ambulantes que correm atrás dos carros à falta de cheiro da cidade de Princeton, somos guiados por uma viagem cheia de fronteiras que parecem inultrapassáveis. Parte da audácia deste livro é essa, a destruição de barreiras, sejam elas linguísticas ou fronteiriças, Americanah é um hino à multiplicidade impossível de catalogar que cada um de nós é.

E quanto a desafios, deixo aqui uma pergunta simples: “Obama beneficiou por ser negro ao concorrer à Casa Branca?

 

Rock&Rolla, 2020