Byung-Chul Han nasceu em 1959 em Seul, Coreia do Sul, e vive atualmente na Alemanha, onde é professor de Filosofia na Universidade das Artes de Berlim.
Byung-Chul Han é, por excelência, o filósofo da atualidade. Nos vários ensaios já publicados são variadíssimos os temas que aborda com uma mestria notável e uma análise inesgotável à sociedade contemporânea.
Em “A Sociedade do Cansaço” Han confronta-nos com o excesso de positividade como um dos maiores males do nosso tempo.
Este excesso causa enfartes em vez de infeções.
É um upgrade à era imunológica de que estamos a sair e onde nos preocupámos a combater a negatividade dos vírus que chegavam do exterior. Hoje, pelo contrário, a violência da positividade nasce de dentro, não pressupõe qualquer hostilidade exterior.
Esta violência alimenta-se do culto da permissividade e da satisfação que impera na sociedade. É uma “violência exaustiva” em vez do anterior arquétipo da “violência exclusiva”, não priva de nada, mas satura-nos de tudo.
No século passado ainda vivíamos no paradigma da imunologia, ou seja, as doenças de que padecíamos eram maioritariamente de natureza viral e fomos construindo fronteiras que mantinham os vírus do lado de fora. Entretanto a globalização deixou de permitir manter o que quer que seja do lado de fora, deixou de haver fora e dentro, para tudo passar a estar ao alcance da normalidade.
A imunologia funciona através do princípio da negatividade, isto é, identifica um corpo estranho e maléfico e reage contra ele. “A defesa imunológica produz-se sempre contra um outro ou um estranho no sentido enfático. O idêntico não leva à formação de anticorpos. Num sistema dominado pelo idêntico, não faz sentido reforçar as defesas do organismo. É imperioso distinguir entre rejeição imunológica e rejeição não-imunológica. Esta prende-se com o excesso do idêntico, o excesso de positividade.”
Segundo o filósofo, é o excesso de positividade que cria os estados patológicos de depressão, transtorno por défice de atenção e hiperatividade e perturbações da personalidade como são os casos de borderline e burnout.
Visto que a saturação do idêntico não é identificada pelo sistema como um corpo estranho, a violência não é percebida como tal. Ao contrário do que acontecia noutras épocas, a violência, hoje, desenrola-se dentro do sistema, é sistémica, logo, não nos apercebemos dela.
E é este o paradoxo que Byung-Chul Han nos mostra: hoje, somos nós que produzimos a nossa própria doença. Somos nós que, através da constante imanência no excesso de positividade, alimentamos e desenvolvemos dentro de nós próprios, a violência.
A violência da positividade assume três características principais: a sobreprodução, o sobrerrendimento e a sobrecomunicação. Esta é uma violência neuronal que leva ao esgotamento, à fadiga e à sensação de sufoco perante o excesso e tem na massificação do positivo a sua causa.
[Excertos retirados da obra “A Sociedade do Cansaço” de Byung-Chul Han]
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