“O homem não é mais do que a sua imagem. Os filósofos bem podem explicar-nos que a opinião do mundo pouco conta e que só importa aquilo que somos. Mas os filósofos não percebem nada. Enquanto vivermos entre os seres humanos, seremos aquilo que os seres humanos considerarem que somos. Passamos por velhacos ou manhosos quando não paramos de perguntar a nós próprios como nos vêem os outros, quando nos esforçamos por ser o mais simpáticos possível. Mas entre o meu eu e o do outro, existirá algum contacto directo, sem a mediação dos olhos? Será pensável o amor sem uma perseguição angustiada da nossa própria imagem no pensamento da pessoa amada?
Quando deixamos de nos preocupar com a maneira como o outro nos vê, deixamos de amar.
É uma ilusão ingénua acreditarmos que a nossa imagem é uma simples aparência, por detrás da qual estaria escondida a verdadeira substância do nosso eu, independente do olhar do mundo. Com um cinismo radical, os imagólogos provam que é o contrário que é verdade: o nosso eu é uma simples aparência, incaptável, indiscritível, confusa, ao passo que a única realidade, quase demasiado fácil de captar e de descrever, é a nossa imagem nos olhos dos outros.
E o pior é que tu não és senhor da tua imagem. Começas por tentar pintá-la tu próprio, depois esforças-te por ao menos conservares certa influência sobre ela, controlando-a, mas em vão: basta uma fórmula maldosa para te transformar para sempre numa caricatura lamentável.”
Milan Kundera, in “A Imortalidade”, 1988