Review: “A Morte da Competência” de Tom Nichols

a morte da competência

É facilmente percetível que vivemos hoje uma crise em relação ao conhecimento estabelecido. Segundo Tom Nichols assistimos a uma veneração da ignorância em sociedades que nunca tiveram acesso a tanto conhecimento.

Vivemos no tempo em que todas as verdades são evidentes, mesmo as que não são verdadeiras, no tempo em que a informação equivale à educação, em que já não existem discussões sérias e fundamentadas, só soundbites repetidos até à exaustão, em que se rejeitam os peritos porque as opiniões autodidatas valem tanto como as que foram alvo de estudo. Vivemos num tempo em que deixámos de estar desinformados, mas passámos a estar mal-informados.

Grassa hoje uma desconfiança irracional em relação aos especialistas com campanhas como as dos “negacionistas das vacinas” e as dos fundamentalistas que defendem que “a Terra é plana” – teorias da conspiração que se revelam, sem pejo, verdades absolutas e inquestionáveis.

Problemas como a falta de “metacognição” – a capacidade de percebermos que não somos bons a fazer uma coisa – é hoje uma realidade disseminada já que ninguém assume que não sabe o que quer que seja. Prova disso são os vídeos que circulam na Internet onde se ouvem respostas convictas quando se fazem perguntas como: o que achou da prestação de Margaret Thatcher no Coachella?

O “viés de confirmação”, que dita a tendência geral dos humanos para procurarem apenas informação que confirma a própria opinião, extrapolado pelo acesso à Internet, é talvez o obstáculo mais comum das nossas sociedades ocidentais a par da ausência de “pensamento crítico”, isto é, “a capacidade de analisar novas informações e ideias contraditórias de forma desapaixonada, lógica e sem condicionamentos prévios, sejam elas emocionais ou pessoais”.

Segundo Tom Nichols, a culpa é em grande parte da “mercantilização do ensino” que criou uma autêntica inflação de habilitações. “A sua opinião vale tanto como a minha!” – é uma boa ilustração do que se passa nas universidades dos EUA quando é proferida por um aluno numa discussão com um professor. Mas, como nos diz o autor: “Quando as universidades são um negócio, os clientes não podem chumbar.”

Vivemos num tempo de “anti-intelectualismo” e, se houve uma altura em que achámos que seria impossível contaminar o ensino e a educação com semelhante contraproducência, somos agora obrigados a enfrentar a horrível verdade: “hoje em dia não são os professores que ensinam os alunos, mas os alunos que ensinam os professores, e com uma autoridade que lhes é completamente natural.”

Estes são apenas alguns dos paradoxos da sociedade em que vivemos e que Tom Nichols retrata excecionalmente n’A Morte da Competência.

O papel da Internet, do jornalismo, da educação universitária, das ciclos de notícias de 24h são alguns dos fenómenos que o autor analisa e que nos obrigam a questionar o caminho que estamos a tomar quando achamos que estamos a construir conhecimento.

 

Rock & Rolla

2023