Diary: Donald Trump e o vírus do Populismo

Diary: Donald Trump e o vírus do Populismo

Donald Trump nasceu a 14 de Junho de 1946 (70 anos) em Queens, Nova Iorque. É um homem de negócios, vulgo empresário, milionário, conhecido do público pelas suas façanhas mediáticas. Este homem é o novo Presidente dos Estados Unidos, e são muitos os que ainda não querem acreditar nesta verdade.

Donald Trump é o homem do momento e, ao contrário do que seria de esperar, sabemos realmente pouco sobre o homem que jaz por detrás do cartoon que a sociedade (comunicação social) pintou nos últimos meses. O que sabemos, bem, é que algo se passa no mundo quando o Presidente dos Estados Unidos ganha uma eleição baseada em demagogia, insultos, palavras toscas e frases feitas. O mundo está doente e nenhuma explicação alterará isso. Podemos arranjar desculpas como o facto de o Partido Democrata ser o culpado deste resultado, o facto de a Hillary ser a pior candidata que podia ter concorrido contra Trump por ser a cara do establishment, o facto de Obama ter caído em descrédito depois de dois mandatos em que esteve completamente manietado, o facto da maioria da população estar descontente com a política americana e com medo da erosão dos valores tradicionais, resumindo, medo do futuro, etc.

A única coisa que está ao nosso alcance é pensar, e pensar (neste caso!), torna-se difícil porque ninguém conhece, verdadeiramente, Donald Trump e ninguém acreditou que teria que conhecer muito em breve. Dizem que é o homem eleito mais impreparado para ser Presidente, dizem que não domina a política externa, dizem que não conhece o mundo para lá da América, dizem que é anti-sistema e racista e xenófobo e misógino e mais uma catrefada de adjetivos que ilustram a improbabilidade de ser eleito e a incredulidade de ter sido.

No entanto, só uma coisa me fez realmente impressão em Donald Trump – a sua insuficiência discursiva. A mesma coisa que me fez sempre duvidar que pudesse ser eleito, a única coisa que eu pensei ser imprescindível num político: as palavras, com sentido.

Os discursos de Donald Trump são do mais deficitário, irracional e vazio que há – mas agora sabemos que são o espelho da nossa sociedade. Uma sociedade que prescinde de sentido é uma sociedade profundamente doente. O que vemos acontecer na América é o resultado do vazio com que a globalização e o capitalismo exacerbado encheram as nossas vidas, é o resultado da virtualidade das relações humanas e da descrença profunda que se respira em torno da política, essa ciência da humanização que se vendeu aos números.

As pessoas vivem tristes, como comprovam os testemunhos das entrevistas que fui lendo nestes dias de rescaldo. A América profunda, aquela que nós não visitamos porque não é apetecível, está pouco acima do limiar da pobreza, e a revolta é um rastilho quando os sonhos nos são roubados. Muitas daquelas pessoas acusam o sistema político de as ignorar constantemente, sentem-se abandonadas e atiradas para o limbo da sobrevivência. O mesmo aconteceu na Europa, porque a crise de 2008 não passou, como nos querem fazer acreditar. E o mesmo acontecerá na Europa nas próximas eleições – porque não há só Trumps na América.

Trump é a personificação da revolta, dos sonhos destruídos, dos votos silenciosos, do medo do futuro, da insuficiência das instituições, da falta de representação política, do declínio da classe média e da nostalgia de um passado perdido. Nestas circunstâncias, as palavras deixam de ter valor e o ser humano deixa-se levar na onda da revolução imaginária que um discurso de frases feitas e de ruptura com a racionalidade evoca.

O quadragésimo quinto Presidente dos Estados Unidos é o espelho da realidade que nós não queremos ver e que a classe política prefere ignorar porque se sabe insuficiente para alterar a situação sem uma revolução profunda nos seus alicerces. Que Donald Trump nos ajude a voltar às palavras, à necessidade do seu sentido e à constatação de que sem o diálogo somos pouco mais do que bárbaros, é a única coisa que peço.

 

Rock&Rolla, 2016