A Banalidade do Mal, por Tony Judt

A Banalidade do Mal, por Tony Judt

Eichmann em Jerusalém – Uma reportagem sobre a banalidade do mal é Hannah Arendt no seu melhor: ataca de frente um tópico doloroso; discorda da sabedoria oficial; provoca discussão, não só entre os seus críticos como também, e em especial, entre os seus amigos; e sobretudo, perturba a paz cómoda da opinião corrente.

O problema do mal será a questão fundamental da vida intelectual na Europa do pós-guerra – tal como a morte se tornou o problema fundamental depois da última guerra.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a idolatria da violência desapareceu quase por completo da vida europeia. Durante o conflito, a violência não foi dirigida apenas contra os soldados; foi sobretudo dirigida contra os civis (uma percentagem elevada de mortes da SGM não foi o combate, mas o contexto de ocupação, de limpeza étnica e do genocídio). E depois da exaustão completa de todas as nações europeias – vencedoras e vencidas – ficaram poucas ilusões sobre a glória do combate ou a honra da morte. O que efetivamente ficou foi a familiaridade generalizada com a brutalidade e com o crime numa escala sem precedentes. A questão de como puderam os seres humanos fazer tudo aquilo uns aos outros – e sobretudo, a questão do como e do porquê um povo europeu (os alemães) se lançou no extermínio de outro (os judeus) – iriam evidentemente ser as questões obsessivas que confrontariam o continente. Foi isto que ela quis dizer com o «problema do mal».

Após a SGM, a maioria dos europeus, longe de refletir sobre o problema do mal, virou resolutamente a cabeça para o outro lado. Hoje custa-nos compreender isto, mas a verdade é que durante muitos anos a Shoah – a tentativa de genocídio dos judeus da Europa – não foi de todo a questão fundamental da vida intelectual do pós-guerra na Europa. Aliás, a maior parte das pessoas – intelectuais ou não – fez por ignorá-la. Porquê?

Na Europa Ocidental, a ocupação – em França, na Bélgica, na Holanda, na Noruega e, a partir de 1943, em Itália – foi uma experiência humilhante e os governos do pós-guerra preferiram esquecer o colaboracionismo e outras indignidades e sublinhar os heroicos movimentos de resistência, as insurreições nacionais, a libertação e os mártires. Durante muitos anos, a partir de 1945, até os que sabiam que a história não é bem assim – como Charles de Gaulle – contribuíram intencionalmente para a criação de uma mitologia nacional de sofrimento heroico e resistência em massa corajosa. Na Alemanha Ocidental do pós-guerra, o sentimento nacional inicial foi de autocomiseração face ao sofrimento dos alemães, e com o início da Guerra Fria e a mudança de inimigos, tornou-se inoportuno realçar os crimes cometidos no passado pelos aliados dos presentes.

Tudo começou a mudar depois dos anos 60, por muitas razões: a passagem do tempo, a curiosidade de uma nova geração e talvez também o desanuviamento das tensões internacionais. Nos anos 80, a história da destruição dos judeus da Europa foi-se tornando cada vez mais conhecida através de livros, do cinema e da televisão.desde os anos 90 e o fim da divisão da Europa, apologias nacionais, locais de memória nacionais, monumentos e museus tornaram-se comuns, e até na Europa de Leste pós-comunista o sofrimento dos judeus começou a ocupar o seu lugar na memória oficial.

A Shoah tornou-se uma referencia universal. A história da Solução Final, ou do nazismo, ou da Segunda Guerra Mundial é obrigatória em todos os currículos liceais. A profecia de Hannah Arendt parece ter-se concretizado: a história do problema do mal tornou-se um tema fundamental da vida intelectual europeia.

Durante muitos anos, os europeus ocidentais preferiram não pensar no sofrimento dos judeus durante a guerra. Agora somos encorajados a pensar neles a toda a hora. Nas primeiras décadas pós-1945, as câmaras de gás foram marginais no nosso entendimento da guerra hitleriana. Agora estão no centro: para os estudantes de hoje, a Segunda Guerra Mundial é o Holocausto. Em termos morais, é assim que deve ser: a questão ética central da Segunda Guerra Mundial é «Auschwitz». A triste verdade é que durante a Segunda Guerra Mundial muitas pessoas não souberam do destino dos judeus e se souberam não se importaram muito. Só houve dois grupos para os quais a Segunda Guerra Mundial foi sobretudo um projeto de destruição dos judeus: os nazis e os próprios judeus. Para quase todos os outros, a guerra teve significados bastante diferentes: já tinham problemas de sobra.

Se queremos compreender o verdadeiro significado do mal – o que Hannah Arendt pretendeu ao chamar-lhe «banal» – convém não esquecer que o que foi verdadeiramente pavoroso na destruição dos judeus não foi o ter sido tão importante, mas sim ter sido tão pouco importante.

Por um lado, o extermínio dos judeus pelos nazis é apresentado como um crime singular, um mal nunca igualado antes ou depois, um exemplo é um aviso: «Nie wieder! Nunca mais!» Por outro, invocamos o mesmo mal («único») com muitos propósitos diferentes e tudo menos singulares. Nos últimos anos, os políticos, os historiadores e os jornalistas têm usado o termo «mal» para se referirem a matanças e genocídios por todo o lado. O próprio Hitler é frequentemente invocado para denotar o «mal» da natureza e das intenções de ditadores modernos: há «Hitlers» em todo o lado, da Coreia do Norte ao Iraque e da Síria ao Irão. Se Hitler, Auschwitz e o genocídio dos judeus encarnam um mal singular, porque nos dizem a toda a hora que eles e outros como eles podem surgir em qualquer lugar ou que estão prontos a surgir?

Estamos a perder a capacidade de distinguir entre os pecados e as loucuras normais da humanidade – a estupidez, o preconceito, o oportunismo, a demagogia e o fanatismo –e o mal genuíno. Há 60 anos, Hannah Arendt receava que baú soubéssemos como falar do mal, logo, que não compreendêssemos o seu significado. Hoje estamos sempre a falar no «mal», mas o resultado é o mesmo: diluímos o seu significado. A banalidade do excesso de uso – o efeito redutor e dessensibilizador de ver, dizer ou pensar tantas vezes a mesma coisa que acabamos por anestesiar os ouvintes e torná-los imunes ao mal que estamos a descrever. E esta é a banalidade – ou a «banalização» – que hoje enfrentamos.

Depois de 1945, a geração dos nossos pais pôs de lado o problema do mal porque tinha significado a mais. A geração a seguir à nossa corre o risco de pôr o problema de lado por ter significado a menos. Como podemos impedir isto? Por outras palavras, como podemos garantir que o problema do mal vai continuar a ser a questão fundamental da vida intelectual e não apenas na Europa? Não sei a resposta mas tenho a certeza que é a pergunta certa. É a pergunta que Hannah Arendt fez há 60 anos e julgo que a voltaria a fazer hoje.”

 

Ensaio originalmente publicado em The New York Times Review of Books, em Fevereiro de 2008.

Tony Judt, in “Quando os Factos Mudam”, Ed. 70, 2015