Michel Houellebecq nasceu na Ilha da Reunião, a 26 de fevereiro de 1958. Michel é tão controverso que até a sua data de nascimento é incerta, podendo ter nascido em 1956.
Romancista, poeta, ensaísta, realizador, argumentista, Houellebecq é um dos mais traduzidos autores franceses contemporâneos.
Foi criado pelos avós maternos na Argélia e, com seis anos, mudou-se para França e ficou ao cuidado da avó paterna, Henriette, cujo sobrenome adotou. A sua infância e a (não) relação com os pais marca profundamente o autor, o que se revela em certos livros como “As Partículas Elementares” onde uma das personagens (Michel) pode ter sido inspirada na sua própria vida.
Graduou-se em agronomia em 1980, casou e teve um filho. Entretanto divorciou-se e, devido ao estado depressivo em que se encontrava, começou a escrever poesia. Os seus primeiros poemas apareceram publicados em 1985 na revista La Nouvelle Revue.
Publicou o seu primeiro romance, “Extensão do Domínio da Luta”, em 1994.
Com o livro “O Mapa e o Território” lançado em setembro de 2010, venceu o prestigiado prémio Goncourt.
O trabalho de Houellebecq é muitas vezes conotado como conservador com base nas suas críticas acérrimas ao movimento hippie, à ideologia da New Age e ao Maio de 68.
Críticos literários conotam os romances de Houellebecq como “vulgares”, “literatura de panfleto” e “pornografia” e o próprio autor já foi acusado de obscenidade, racismo, misoginia e islamofobia.
Houellebecq não é, como se pode ver, um autor convencional. A sua escrita rasga com vários parâmetros literários e é, muitas vezes, demasiado crua chegando a ter diversas descrições técnicas sobre os mais variados temas.
Uma das principais críticas apontadas a Houellebecq é o tratamento dado às mulheres nos seus romances. São, na maior parte das vezes, tratadas como objetos de prazer ou de forma misógina sem, no entanto, deixar de lhes conferir uma importância contundente. Há quem afirme que assim é pela relação conturbada que o autor experienciou com a própria mãe.
A doença, o suicídio, o divórcio, o abandono, a frustração sexual, a religião e a política são alguns dos temas mais abordados por Houellebecq nos seus romances. Problemas sociais como a clonagem ou o fanatismo religioso são outro dos pontos chave da obra do autor que chega a ser acusado por muitos de islamofobia.
Houellebecq raramente responde às críticas e mostra-se extremamente impassível quando confrontado com questões menos favoráveis.
Submissão
Submissão não é um livro que se possa julgar pela capa e talvez por isso tenha sido alvo dos mais variados comentários aquando da sua publicação. Houellebecq chegou a cancelar a apresentação do livro em vários locais, o que se deve, em parte, ao lançamento ter coincidido com o dia do ataque terrorista ao jornal satírico Charlie Hebdo, 7 de janeiro de 2015.
A narrativa desenrola-se em 2022 numa França prestes a ser governada pelo partido da Fraternidade Muçulmana que se envolve numa disputa direta pela presidência com a ultraconservadora Frente Nacional (de Marine Le Pen). Mohammed Ben Abbes é o líder carismático que está por trás desta ascensão muçulmana que a pouco e pouco se instala em França. Quando se confirma que o islão é a nova “lei” francesa as coisas começam a mudar e são feitos diversos ajustes em termos sociais e pessoais. As roupas mudam, o contacto social é alterado, os locais de sociabilidade são comprometidos, o patriarcado ressuscita e as mesquitas são locais de conversão diária. Só uma coisa se mantém intocada nesta nova sociedade: o sexo e a perversidade do seu poder, ou não fosse a promessa de três mulheres súbditas a converter o alienado François ao islão.
Submissão pode ser um romance assustador se acreditarmos na possibilidade real da sua execução. E, no mundo em que vivemos hoje, poucas coisas nos parecerão impossíveis em 2022. Houellebecq é um mestre do impensável que consegue construir uma sequência lógica sem muitos pormenores, mas cheia de relevância acerca da condição humana, o seu tema de eleição presente em todos os romances.
“De um modo geral, o meu corpo era sede de diferentes afeções dolorosas – enxaquecas, doenças de pele, dores de dentes, hemorroidas – que se sucediam ininterruptamente e nunca me deixavam em paz – e tinha apenas quarenta e quatro anos! O que seria de mim quando tivesse cinquenta, sessenta, e por aí fora! Nessa altura seria apenas uma justaposição de órgãos em lenta decomposição, e a minha vida transformar-se-ia em tortura incessante, taciturna e sem alegria, medíocre. No fundo, a pila era o único dos meus órgãos que nunca se manifestara por intermédio da dor mas sim por intermédio do prazer. […]
O meu interesse pela vida intelectual diminuíra muito; a minha existência social também não era mais gratificante do que a minha existência corporal, apresentava-se sob a forma de uma sucessão de problemas menores – lavatório entupido, Internet avariada, perda de pontos na carta de condução, desonestidade da mulher-a-dias, erros na declaração de impostos –, também em sucessão ininterrupta, praticamente sem nunca me deixarem em paz. […]
Eu suspeitava que o que o atraía no mosteiro não era tanto a possibilidade de escapar ao chamamento dos prazeres carnais, mas sobretudo a possibilidade de se livrar da esgotante e taciturna sucessão de pequenas preocupações da vida quotidiana, de tudo o que ele escrevera em À Vau-l’Eau. Ao menos, no mosteiro, dão-nos cama, mesa e roupa lavada – e como bónus, no melhor dos casos, a vida eterna.”
Rock & Rolla