Chelsea Hotel, por Patti Smith

Chelsea Hotel, por Patti Smith

“O hotel é um enérgico e desesperado ponto de abrigo para imensas crinças dotadas e carentes saídas de todos os níveis da escala. Vagabundos com guitarras e beldades pedradas trajando vestidos vitorianos. Poetas junkie, dramaturgos, cineastas sem tostão e actores franceses. Toda a gente que passa por aqui é alguém, mesmo que não seja ninguém no mundo lá de fora.

A vida no Chelsea era uma feira franca, onde toda a gente tinha algo de si para vender. Toda a gente tinha algo para oferecer e ninguém parecia ter muito dinheiro. Até os mais bem sucedidos pareciam dispor apenas do suficiente para poderem viver como vagabundos extravagantes.

Havia rumores de que as malas do Oscar Wilde continuariam a repousar algures na cave, que muitas vezes se inundava. Fora ali que Dylan Thomas, alagado de poesia e de ácool passara as suas últimas horas. Que o Thomas Wolfe lavrara centenas de páginas do manuscrito que viria a constituir You Can’t Go Home Again. O Bob Dylan tinha composto a “Sad-Eyed Lady of the Lowlands” no nosso piso.

Toda a gente escrevera, conversara e convulsionara naqueles quartos de casa de bonecas vitoriana. Tantas saias haviam roçado aqueles degraus de mármore já gastos. Tantas almas em trânsito se haviam ali desposado, deixado marcas e sucumbido. Eu cheirava os espíritos deles enquanto saltitava silenciosamente entre um andar e outro.

O Gregory Corso, o Allen Ginsberg e o William Burroughs foram todos eles meus professores, e todos eles cruzaram o átrio do Hotel Chelsea, a minha nova universidade.”

 

Patti Smith in “Just Kids”, 2010